Fomos criados, meu irmão, eu e
mais um milhar de homens - e talvez até amansados - na era do vídeo game. Nasci
e um dos meus primeiros maiores desejos consumistas foi o Atari que um dia meu pai
nos deu com tanto carinho. Veio de fora, dos tios marinheiros, que traziam os
importados desejados por toda a família. Papai o transcodificou para termos cores
e pronto. Antes disso eu já jogava telejogo na casa de um amigo, mas só quando
seu pai nos permitia. Certo natal papai encheu a árvore de caixinhas de cueca
com o nome do meu irmão e meu, na hora de abrir os presentes os dois frustrados
encheram-se de alegria, dentro das caixas não havia cuecas e sim cartuchos de
Atari.
Depois veio o Nintendinho. Esse
veio com o tio seminarista que estava nos EUA, acho que ele que nos deu, ou
papai encomendou não me lembro. Depois de transcodificado e desbloqueado papai
nos levava para a locadora de cartuchos para nos deliciarmos em jogos, muitas
vezes só mandávamos a lista dos jogos que queríamos e ele trazia tudo certinho.
Tínhamos a pistola Nintendo e papai me deu de presente a assinatura de uma
revista especializada em games e eu viciei. Do Nintendinho veio o Super
Nintendo!!! Esse foi ganho – sim leitor invejoso – da mãe de uma aluna de minha
mãe, um presentão! Completo, na caixa, zerado. Como era vindo dos EUA papai
logo desbloqueou e esse já não precisava transcodificar só precisávamos ficar
atentos aos jogos japoneses.
Em ambos os casos, Nintendo e
Super Nintendo, além de um PC 386 na casa de um amigo onde jogávamos jogos de
carrinho em telas verde/preto, só nos era permitido jogar em caso de férias.
Durante todo o período letivo, incluindo feriados e fins de semana, os vídeo
games eram fechados em um compartimento do armário do quarto de meus pais,
inacessível. Só jogava nas férias quem tivesse boas notas, esse era o
requisito. Aqui provavelmente começa a raiz do problema que tratarei nesse
“artigo”: a culpa em se jogar vídeo game.
Depois veio o PSone, comprei-o eu
mesmo, de um amigo, usado, comprei para ver como era e apaixonado a primeira
vista comecei a jogar bastante. Na época eu era estudante de História e não
tinha mais meus pais me vigiando, já não ligávamos tanto para os consoles, eu
jogava WOW e AOE no computado e já não era só nas férias, no caso do PSone meus
pais nem mesmo moravam mais comigo, eu já morava sozinho, mas eu me vigiava, só
jogava nos fins de semana. Nessa época adquiri também o Game boy, primeira
geração, que levava para a faculdade e jogava no intervalo.
Veio a formatura em História e ao
invés do carro e da viagem que muitas famílias de classe média dão aos seus
filhos eu pedi um PS2, sim e ainda era aquele quadradão!!! Pedi e ganhei! Papai
se revoltou, falou com minha mãe: “onde já se viu um rapaz que termina sua
graduação ganhar um vídeo game???”, ela ignorou e eu jogava com culpa todas as vezes.
Equipei-o e chamava os amigos para jogar futebol com 4 controles! Sucesso! Eu
era o amigo com o PS2 mais equipado da patota. Jogava com culpa até que um dia
entraram na minha casa, ladrões, e levaram meu PS2 e todo o seu equipamento.
Foi triste, fiquei chateado e me afastei dos vídeo games.
A vida profissional começou e a amorosa também, já não havia tempo para os
vídeo games até que surgiram o PS3 e o PSP.
Pedi, de cara, que meus pais me enviassem os dois! E pedi junto com? Um
Nintendo Wii. Sim, eu tinha uma estratégia em mente, lutaria contra meu pai,
que obviamente se opôs à compra do PS3 e de quebra com o Wii ganhava o coração
das moças que porventura pudessem entrar na minha vida. Valeu. Meu pai chiou,
horrores. Se revoltou, mas nada podia fazer, eu já não ganhava, eu comprava meu
vídeo game e junto dele jogos de terror. Ele falava: esses jogos com capeta na
capa, não sei não. Paralelamente arranjei um esquema de meu irmão comprar seu
Xbox 360 - ele preferiu ao PS3 por ser mais barato. Aproveitei a bagunça e
comprei meu PSP, aquilo era a vida em minhas mãos! Levava para todo canto e
como desculpa de estar em fila de banco, ou voando daqui pra lá, de lá pra cá,
jogava e assistia a milhões de filmes.
O tempo passou e o Wii era um
vídeo game feminino, que às vezes me divertia, e eu jogava sempre que podia o
PS3, com culpa. A vida deu algumas lições e eu precisei de grana. O Wii rodou
primeiro e depois como não houvera outra solução financeira e pressionado pela
namorada que detestava vídeo games, vendi o PS3 gordão, de primeira geração.
Chorei. Chorei porque ele era um ícone da minha liberdade que estava indo
embora, minha inofensiva diversão que tanto incomodava meu pai e minha
namorada, além de outras pessoas que eu via apaixonadamente defendendo em redes
sociais o fim dos vídeo games, ganhavam a minha inocente e nem tão cara
liberdade. Adotei o discurso que vendi porque nem jogava, que não tinha tempo e
de fato o tempo era escasso e deixei que eles fossem embora, sabedor inclusive
de que a grana deles nem mesmo serviria para grandes coisas, como de fato não
serviu.
A namorada se foi e odiei ter
cedido à venda do PS3, tanto que de raiva peguei emprestado o Xbox do meu irmão
por 2 dias logo após o término para que ele me consolasse e consolou. Joguei
até não poder mais, mas ele tinha só o primeiro Call of Duty que valia a pena,
o restante eram jogos de corrida que eu não curto. Devolvi o Xbox e apaguei os
vídeo games de minha vida. Trabalhar era preciso, além de recomeçar a vida.
Joguei nesse período na casa de
amigos enquanto via crescer nas redes sociais, artigos de internet e matérias
jornalísticas três linhas contra os vídeo games. Na primeira estavam as
mulheres que agora se relacionando com a geração do vídeo game - que faço parte
como contei aí em cima – começaram a atacar os jogos como “ladrões” de seus
homens! Existem campanhas do tipo: se ele dá pause no vídeo game para te
atender ao telefone, case com ele. Algo parecido com o que a geração masculina
sofreu em relação ao futebol. Em segundo estavam os jornais e psicólogos
picaretas (já que não existe estudo comprobatório) dizendo que os jogos
deixavam crianças e jovens violentos. E por fim uma linha que defende que hoje
em dia as crianças ficam mais em frente a telas que brincando na rua.
Ora, vamos analisar com calma as
3 linhas, lógico, colocando a opinião de quem vos escreve e tentar desmitifica-las.
Quanto às mulheres, conforme eu identifiquei bem, esse “ele está me trocando
por outra coisa” vem de longe. A mulher culpa o homem, animal menos desenvolvido
que ela, de ser infantilizado por jogar vídeo game, coisa que é mentira, pois
os jogos acompanharam a maturidade e hoje em dia vídeo games como PS3 e Xbox
360 são considerados entretenimento de adultos. Outra coisa é a eterna carência
por atenção delas, pois qualquer que seja a troca, mesmo que momentânea, leva a
uma crise, seja pelo futebol, vídeo game, carros, amigos, trabalho ou coisa que
o valha.
Na segunda está a violência. Ora,
como acusar os vídeo games de causar a violência nos jovens? Basta ligar a
Globo, por exemplo, para ver alguém tomando tiro, cenas de sexo e etc. A
televisão é uma fonte desse tipo de coisa e eu sinceramente não acredito que a
exposição à violência cause a necessidade em se tornar violento nas pessoas, na
verdade penso que o efeito pode ser, inclusive, o contrário. Por fim, não
existem estudos conclusivos sobre qualquer uma dessas teorias, então até que
exista não dá para perseguir como se fossem hereges quem se dedica a tais
atividades, além disso, eu nunca quis servir o exército apesar de ter brincado
a infância inteira com os Comandos em Ação, pelo contrário, tenho ojeriza ao
serviço militar.
E por fim a questão das crianças
estarem menos nas ruas e mais nos vídeo games. Segundo analiso, a culpa disso é
dos próprios pais que ao acreditarem no terrorismo constante que TV’s e jornais
fizeram sobre o uso do espaço público encarcerando seus filhos em casa por
medo. Ora, crianças em casa à toa destroem o imóvel, elas tem energia. E os
pais ao perceber isso socaram seus filhos em frente a televisão, só que a TV
não interage e logo os vídeo games entraram no gosto da criançada. É lógica
pura.
Conclusão:
Tudo em excesso faz mal, não
defendo que a criança/adolescente/adulto fique horas e horas em frente a um
vídeo game e saia ileso. Tenho quase certeza que isso vai lhe causar danos,
sejam sociais, sejam cerebrais, ou de visão, não sei, não tenho competência
intelectual para afirmar nada, porém tenho certeza em dizer: tudo em excesso
faz mal.
Outra coisa importante é a índole.
Criança na roça, sem pegar em um controle, mata pintinho e galinha no soco.
Essas crianças sequer tiveram contato com o GTA, mas matam, são cruéis e etc. esse
comportamento é inerente ao ser humano, nascemos cruéis e somos domesticados
socialmente. Claro que o não respeitar da faixa etária dos jogos pode trazer
danos ao comportamento de uma criança que já é violenta, portanto eu sempre
recomendo aos pais que leiam e verifiquem os jogos que seus filhos estão
jogando, pois já vi crianças de 8, 10 anos matando no GTA com a alegria de quem
vê palhaços na TV. Defendo o respeito inegociável da faixa etária dos jogos.
Outra coisa são os pais que
preferem os filhos dentro de casa. Ora, depende de você cultivar uma educação
onde seu filho frequente praças, museus e clubes, meus pais sempre nos
ensinaram que tem hora para tudo, portanto sabíamos que haveria hora de jogar
vídeo game, hora de ajudar na limpeza da casa, hora de brincar de skate e assim
por diante.
E por fim, às mulheres. Ora, essa
briga de gêneros é irritante, mas deixo algo para as mulheres pensarem um pouco
sobre o assunto (talvez aqui eu me defenda mais claramente). Se seu namorado/marido
joga vídeo game nos momentos de relaxamento dele, qual o problema? Ele não
espera que você se maquie por 45 dias para ir a uma festa? Ele não respeita sua
ida de 3 dias ao shopping para olhar o preço de uma calça jeans e comprar
depois na loja da esquina? Cada gênero com seu passatempo, com sua
especificidade o que não anula também que mulheres joguem vídeo game e vejam
futebol, além de homens que se maquiam (sem pedras, os metrossexuais existem) e
demoram a se decidir em comprar uma peça de roupa. O que se deve ter em mente é
o respeito. Quando está além do limite tolerável, converse e negocie ao invés
de tolher, de cercear, isso cansa e o mercado anda complicado, se não der
certo, procure um príncipe que não jogue vídeo game (ele certamente será um
chato), ou quando seu moço estiver se dedicando ao Playstation, faça coisas que
te apetece.
Viva os vídeo games!!! Sem culpa,
por favor.